Comunicação sobre Novos Modelos de Negócio para os
Media apresentada por mim, no Fórum Jornalismo e Sociedade que decorreu
hoje no Auditório da Escola Superior de Educação de Portalegre.
Painel:
"Que princípios e valores essenciais devem ser preservados no "Next
Journalism"?
Novos modelos de negócio para o
Jornalismo Online
Mesa:
Nicolau Santos (Expresso) e Ângela Mendes (Revista Pormenores)
Sabemos
que os media enfrentam nos tempos que correm grandes desafios, e um dos maiores
será encontrar um modelo de negócio online que garanta a sua sustentabilidade
enquanto estruturas empresariais.
Mas
este não é um momento imprevisto: desde o aparecimento da Internet e da
expansão do seu uso a nível particular, nos anos 90, que a indústria pressentia
a mudança.
A
recessão que teve início em 2008 apenas acelerou um processo que já se havia iniciado,
segundo autores como Philipe Mayer, nos anos 70, com a queda progressiva da
venda de jornais em banca.
Embora
as dificuldades se encontrem um pouco por todos os media, a imprensa parece ser
o meio que mais dificuldades têm tido a adaptar-se às novas plataformas online.
Gustavo
Cardoso afirma que estamos a viver um momento de ruptura.
A
par das dificuldades ligadas à adaptação a uma nova linguagem, às metodologias
de trabalho impostas pelo aparecimento de novas plataformas, surgem também
questões éticas, com as quais ainda estamos a lidar.
A
imprensa é ainda afectada pela falência do seu modelo de negócio, modelo esse
que funcionou ao longo de décadas e moldou o sector.
Um
modelo que não é linear. A maioria dos negócios oferecem um produto ou um
serviço e o público escolhe comprar ou não. Mas o jornalismo tem sido pago
maioritariamente por meios indirectos.
Os
jornais produzem notícias que vendem em banca aos seus leitores, que as compram
por um preço simbólico, providenciando aos jornais a moeda de troca que os
jornais apresentam aos seus anunciantes, os verdadeiros investidores.
O
modelo funcionou durante décadas, atravessou toda a Era Industrial, sendo o
jornal em si, enquanto produto manufacturado, um produto acabado dessa mesma Era.
À
medida que entramos na Era Digital, este produto começa a tornar-se obsoleto.
Assim como o modelo de negócio que o sustém.
As
companhias que detêm jornais têm sofrido daquilo a que Theodore Levitt chamou
de Marketing Miopia, não percebendo que o seu negócio deveria ser baseado em notícias,
conteúdos, informação e não na venda de jornais em banca.
Sabemos
hoje que dois dos elementos do triângulo do modelo de negócio da imprensa estão
a mudar de comportamento.
Por
um lado, os consumidores mostram-se relutantes em pagar por conteúdo online,
por outro, os anunciantes encontraram na internet outras plataformas mais
apetecíveis para passarem a sua mensagem.
Com
a queda expressiva da venda em banca nos últimos anos e com o mercado
publicitário em baixa e à procura de meios alternativos, os media encontram-se
em dificuldades.
Acelerados
pela crise, muitos começaram a apostar mais nas suas plataformas online, embora
estas não sejam ainda sustentáveis.
Tradicionalmente,
os conteúdos online têm sido oferecidos de forma gratuita.
Por
um lado, aquando do aparecimento da internet, este era um mundo novo, que
levantava muitas dúvidas, mas quase todos perceberam rapidamente que lá
deveriam estar. Inicialmente com versões decalcadas do conteúdo impresso e sem
pretensão ao lucro.
Por
outro lado, a informação na internet é abundante e fácil de encontrar, logo o
seu valor é muito baixo.
Há
também uma percepção generalizada de que há falta de qualidade nos conteúdos,
que são geralmente resultado daquilo a que se chama shovelware, cópias
integrais de artigos impressos e sem recurso a elementos multimédia.
Ainda
assim, começaram a surgir modelos de negócio que imputam os custos de produção
das notícias ao consumidor.
É
o caso do New York Times, com a sua paywall porosa, ou do Público em Portugal,
que disponibiliza já um espaço reservado a assinantes.
O
aparecimento dos smartphones e de Tablets significou novas aplicações e novas
esperanças para o sector.
Não
é, no entanto, ainda claro qual o modelo que melhor se aplica a uma imprensa
livre e independente de poderes políticos e principalmente de poderes
económicos.
As
hipóteses avançadas têm sido muitas: O modelo Freemium, a paywall total, o
crowdfunding, os micropagamentos, o mecenato, a venda de aplicações para
dispositivos móveis, a réplica de antigos modelos baseados na publicidade, ou
uma mistura de todos eles, num modelo 360º, como defende João Canavilhas.
Um breve apontamento sobre a imprensa
regional:
Porque este modelo
de negócio foi também verdade para os jornais regionais, nomeadamente para os
de regiões como a nossa.
E em regiões com
tão poucos recursos como a nossa, este modelo é, a meu ver, comprometedor da
ética, da liberdade de imprensa e até mesmo da obrigação do jornalismo para com
a verdade.
Com um tecido
empresarial pobre e muito afectado pela crise económica, e com um número de
leitores demasiado frágil para interessar a anunciantes de dimensão nacional,
os jornais regionais vêem-se muitas vezes dependentes daquilo a que chamamos
publicidade institucional.
Os editais dos
municípios, os cartazes das festas da terra, os comunicados do tribunal, etc.
Esta relação de
dependência tão directa com as instituições de poder, que deveriam vigiar,
impede muitas vezes os órgãos regionais de fazerem de forma livre e consciente
o seu trabalho.
Qual foi a
última grande polémica colocada a nu por um jornal regional? O último caso de
corrupção? A última investigação de fundo e realmente incómoda feita pelos
meios regionais?
Quando avaliamos
as páginas dos nossos semanários vemos realmente coisas relevantes?
Sentimos que
cumprem o seu papel de "watchdog" da nossa sociedade?
Muitas vezes é
perguntado a jornalistas se são alvo de pressões externas. Na sua maioria a
resposta é taxativamente não. E provavelmente nunca o foram.
Porque a
dependência de um modelo de negócio ultrapassado é mais subtil, provocando
antes a autocensura, os meios regionais limitam-se a si mesmos por motivos
económicos, optando por não entrarem em terrenos pantanosos, não melindrar
instituições, deixando que os blogues e os anónimos peguem em factos mais
incómodos.
A dependência da
publicidade é então o primeiro ponto a ser superado, na procura de novos
modelos de negócio para os media, em particular para a imprensa regional.
Dividimo-nos
ainda sobre se a filosofia de gratuitidade se deve manter ou se os leitores/consumidores
devem assumir o custo da produção da informação que recebem.
Mas
concordamos todos que os media estão a mudar, que no futuro a maneira como se
definem os meios, as plataformas em que teremos acesso aos conteúdos e os
próprios conteúdos, serão diferentes.
No
entanto, o bom jornalismo tem conseguido sobreviver às alterações do tempo, ao
surgimento de novas tecnologias e a internet deverá ser apenas mais uma dessas
etapas.
Vivemos
uma realidade complexa e o jornalismo sofre pressões de vários sectores; saber
como se irão financiar as empresas jornalísticas é essencial para preparar o
futuro e definir a profissão.
Só
tendo a capacidade de ser sustentável e independente, a imprensa poderá cumprir
a sua obrigação para com a verdade e manter-se leal única e exclusivamente aos
seus leitores.
Ângela Mendes
angelamendes@pormenores.pt